Marilena
Chauí.
Marilena de Souza Chaui nasceu em Pindorama
na cidade de São Paulo, em 4 de setembro de 1941 é uma
filósofa e historiadora de filosofia brasileira, ex-secretária Municipal de
Cultura de São Paulo, de 1989 a 1992.
É filha do jornalista Nicolau
Alberto Chaui, de origem árabe, e da
professora Laura de Souza Chaui. Foi casada com o jornalista José Augusto de
Mattos Berlinck (1938), com quem
teve dois filhos - José Guilherme e Luciana. Atualmente é casada com Michael Hall, historiador e professor
da Unicamp.
Professora titular de Filosofia Política e História da Filosofia Moderna da Faculdade de Filosofia, Letras
e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo
(FFLCH-USP), é mestre (1967, com Merleau-Ponty e a crítica do humanismo, sob a orientação do
professor Bento Prado de Almeida Ferraz Júnior), doutora (1971, com Introdução à leitura de Espinosa, sob a
orientação da professora Gilda Rocha de Mello e Souza) e livre docente de
Filosofia (1977, com A nervura do real: Espinosa e a questão da
liberdade) pela USP.
A
filósofa ingressou no curso de filosofia da Universidade de São Paulo em 1960,
graduando-se em 1965. Ela defendeu sua dissertação de mestrado, intitulada
Merleau-Ponty e a crítica do humanismo, em 1967. Neste mesmo ano ela deu início
ao seu doutorado na França, defendendo tese sobre o filósofo Espinosa,
em 1971, também na USP.
Marilena
prestou concurso em 1987 e conquistou o cargo de professora titular de
filosofia. Ela ministra aulas no Departamento de Filosofia da Universidade de
São Paulo, tendo se especializado em História da Filosofia Moderna e em
Filosofia Política. Atualmente Chauí é historiadora de filosofia brasileira,
Professora de Filosofia Política e História da Filosofia Moderna da Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – a
FFLCH-USP.
Respeitada
não apenas por sua obra acadêmica, mas também pela intensa e frequente ação no
âmbito intelectual e político brasileiro, ela é também integrante do Partido
dos Trabalhadores, instituição que ela ajudou a criar, membro do Diretório
Estadual e, depois, do Diretório Municipal do PT. Sua atuação à frente da Secretaria
Municipal de Cultura ocorreu na gestão da ex-prefeita Luiza Erundina. Ela
participa igualmente da Comissão Teotônio Vilela.
Sua
produção acadêmica conquistou grande êxito, mas alguns de seus trabalhos,
escritos em estilo didático e singelo, de fácil compreensão, propiciam seu
sucesso também entre as pessoas leigas, desvinculadas do universo acadêmico.
Seu livro O que é Ideologia, publicado pela Editora Brasiliense, na Coleção
Primeiros Passos, foi recorde de vendas, alcançando a cifra dos cem mil
exemplares vendidos.
Marilena
é Presidente da Associação Nacional de Estudos Filosóficos do século XVII,
Doutora Honoris Causa pela Universidade de Paris VIII e Doutora Honoris Causa
pela Universidad Nacional de Córdoba, da Argentina. Atualmente ela desenvolve
uma pesquisa sobre A elaboração espinosana de uma ciência dos afetos – ruptura
com a tradição da contingência e afirmação da necessidade, dentro da Faculdade
de Filosofia da USP. Em sua obra é possível encontrar temas como ideologia,
cultura, universidade pública, entre outros.
Além de extensa produção acadêmica, Marilena também publicou livros
paradidáticos de Filosofia, voltados sobretudo para o público jovem ou não
especializado. Seu livro O que é
Ideologia (Ed. Brasiliense, Coleção Primeiros Passos) tornou-se um best-seller e vendeu
mais de cem mil exemplares, bastante acima da média de vendas dos livros no
Brasil.
Na década
de 1980, Marilena Chaui foi acusada por José Guilherme Merquior de plagiar a obra do
filósofo francês Claude
Lefort.
Continua ligada ao Partido dos Trabalhadores (PT) e
considera que a experiência à frente da Secretaria da Cultura do Município de
São Paulo foi de extrema importância para tornar o trabalho ainda mais
sintonizado com a realidade e os problemas nacionais.
IDEOLOGIA E
ALIENAÇÃO
A variação das condições materiais de uma
sociedade constitui a História dessa sociedade e Marx as designou como modos de produção. A História é
a mudança, passagem ou transformação de um modo de produção para outro. Tal mudança não se realiza por acaso
nem por vontade livre dos seres humanos, mas acontece de acordo com condições
econômicas, sociais e culturais já estabelecidas, que podem ser alteradas de
uma maneira também determinada, graças à práxis humana diante de tais condições
dadas.
O fato de que a mudança de uma
sociedade ou a mudança histórica se faça em condições determinadas, levou Marx
a afirmar que: “Os homens fazem a História, mas o fazem em condições
determinadas”, isto é, que não foram escolhidas por eles. Por isso também, ele
disse: “Os homens fazem a História, mas não sabem que a fazem”.
Estamos, aqui, diante de uma
situação coletiva muito parecida com a que encontramos no caso de nossa vida
psíquica individual. Assim como julgamos que nossa consciência sabe tudo, pode
tudo, faz o que pensa e quer, mas, na realidade, está determinada pelo
inconsciente e ignora tal determinação, assim também, na existência social, os
seres humanos julgam que sabem o que é a sociedade, dizendo que Deus ou a
Natureza ou a Razão a criaram, instituíram a política e a história, e que os
homens são seus instrumentos; ou, então, acreditam que fazem o que fazem e
pensam o que pensam porque são indivíduos livres, autônomos e com poder para
mudar o curso das coisas como e quando quiserem.
Por exemplo, quando alguém diz
que uma pessoa é pobre porque quer, porque é preguiçosa, ou perdulária, ou
ignorante, está imaginando que somos o que somos somente por nossa vontade,
como se a organização e a estrutura da sociedade, da economia, da política não
tivesse qualquer peso sobre nossas vidas. A mesma coisa acontece quando alguém
diz ser pobre “pela vontade de Deus” e não por causas das condições concretas
em que vive. Ou quando faz uma afirmação racista, segundo a qual “a Natureza
fez alguns superiores e outros inferiores”.
A alienação social é o
desconhecimento das condições histórico-sociais concretas em que vivemos,
produzidas pela ação humana também sob o peso de outras condições históricas
anteriores e determinadas. Há uma dupla alienação: por um lado, os homens não
se reconhecem como agentes e autores da vida social com suas instituições, mas,
por outro lado e ao mesmo tempo, julgam-se indivíduos plenamente livres,
capazes de mudar suas vidas individuais como e quando quiserem, apesar das
instituições sociais e das condições históricas. No primeiro caso, não percebem
que instituem a
sociedade: no segundo caso, ignoram que a sociedade instituída determina seus pensamentos e ações
As três formas da
alienação social
Podemos falar em três grandes
formas de alienação existentes nas sociedades modernas ou capitalistas:
1. A alienação social, na qual os humanos não se
reconhecem como produtores das instituições sociopolíticas e oscilam entre duas
atitudes: ou aceitam passivamente tudo o que existe, por ser tido como natural,
divino ou racional, ou se rebelam individualmente, julgando que, por sua
própria vontade e inteligência, podem mais do que a realidade que os
condiciona. Nos dois casos, a sociedade é o outro (alienus), algo
externo a nós, separado de nós, diferente de nós e com poder total ou nenhum
poder sobre nós.
2. A alienação econômica, na qual os produtores
não se reconhecem como produtores, nem se reconhecem nos objetos produzidos por
seu trabalho. Em nossas sociedades modernas, a alienação econômica é dupla:
Em primeiro lugar, os
trabalhadores, como classe social, vendem sua força de trabalho aos
proprietários do capital (donos das terras, das indústrias, do comércio, dos
bancos, das escolas, dos hospitais, das frotas de automóveis, de ônibus ou de
aviões, etc.). Vendendo sua força de trabalho no mercado da compra e venda de
trabalho), os trabalhadores são mercadorias e, como toda mercadoria, recebem um
preço, isto é, o salário. Entretanto, os trabalhadores não percebem que foram
reduzidos à condição de coisas que produzem coisas; não percebem que foram
desumanizados e coisificados.
Em segundo lugar, os trabalhos
produzem alimentos (pelo cultivo da terra e dos animais), objetos de consumo
(pela indústria), instrumentos para a produção de outros trabalhos (máquinas),
condições para a realização de outros trabalhos (transporte de matérias-primas,
de produtos e de trabalhadores). A mercadoria-trabalhador produz mercadorias.
Estas, ao deixarem as fazendas, as usinas, as fábricas, os escritórios e entrarem
nas lojas, nas feiras, nos supermercados, nos shoppings centers parecem ali
estar porque lá foram colocadas (não pensamos no trabalho humano que nelas está
cristalizado e não pensamos no trabalho humano realizado para que chegassem até
nós) e, como o trabalhador, elas também recebem um preço.
O trabalhador olha os preços e
sabe que não poderá adquirir quase nada do que está exposto no comércio, mas
não lhe passa pela cabeça que foi ele, não enquanto indivíduo e sim como classe
social, quem produziu tudo aquilo com seu trabalho e que não pode ter os
produtos porque o preço deles é muito mais alto do que o preço dele,
trabalhador, isto é, o seu salário.
Apesar disso, o trabalhador
pode, cheio de orgulho, mostrar aos outros as coisas que ele fabrica, ou, se
comerciário, que ele vende, aceitando não possuí-las, como se isso fosse muito
justo e natural. As mercadorias deixam de ser percebidas como produtos do
trabalho e passam a ser vistas como bens em si e por si mesmas (como a
propaganda as mostra e oferece). Na primeira forma de alienação econômica, o
trabalhador está separado de seu trabalho - este é alguma coisa que tem um
preço; é um outro (alienus), que não o trabalhador.
Na segunda forma da alienação econômica, as
mercadorias não permitem que o trabalhador se reconheça nelas. Estão separadas
dele, são exteriores a ele e podem mais do que ele. As mercadorias são um
igualmente um outro, que
não o trabalhador.
3. A alienação
intelectual, resultante da separação social entre trabalho material (que produz
mercadorias) e trabalho intelectual (que produz idéias). A divisão social entre
as duas modalidades de trabalho leva a crer que o trabalho material é uma
tarefa que não exige conhecimentos, mas apenas habilidades manuais, enquanto o
trabalho intelectual é responsável exclusivo pelos conhecimentos. Vivendo numa
sociedade alienada, os intelectuais também se alienam. Sua alienação é tripla:
Primeiro, esquecem ou ignoram
que suas idéias estão ligadas às opiniões e pontos de vista da classe a que
pertencem, isto é, a classe dominante, e imaginam, ao contrário, que são idéias
universais, válidas para todos, em todos os tempos e lugares.
Segundo, esquecem ou ignoram
que as idéias são produzidas por eles para explicar a realidade e passam a crer
que elas se encontram gravadas na própria realidade e que eles apenas as
descobrem e descrevem sob a forma de teorias gerais.
Terceiro, esquecendo ou
ignorando a origem social das idéias e seu próprio trabalho para criá-las,
acreditam que as idéias existem em si e por si mesmas, criam a realidade e a
controlam, dirigem e dominam. Pouco a pouco, passam a acreditar que as idéias
se produzem umas as outras, são causas e efeitos umas das outras e que somos
apenas receptáculos delas ou instrumentos delas. As idéias se tornam separadas
de seus autores, externas a eles, transcendentes a eles: tornam-se um outro.
As três grandes formas da
alienação (social, econômica e intelectual) são a causa do surgimento, da
implantação e do fortalecimento da ideologia.
A ideologia
A alienação social se exprime
numa “teoria” do conhecimento espontânea, formando o senso comum da sociedade.
Por seu intermédio, são imaginadas explicações e justificativas para a
realidade tal como é diretamente percebida e vivida.
Um exemplo desse senso comum
aparece no caso da “explicação da pobreza, em que o pobre é pobre por sua
própria culpa (preguiça, ignorância) ou por vontade divina ou por inferioridade
natural. Esse senso comum social, na verdade, é o resultado de uma elaboração
intelectual sobre a realidade, feita pelos pensadores ou intelectuais da
sociedade - sacerdotes, filósofos. cientistas, professores, escritores,
jornalistas, artistas -, que descrevem e explicam o mundo a partir do ponto de
vista da classe a que pertencem e que é a classe dominante de sua sociedade.
Essa elaboração intelectual incorporada pelo senso comum social é a ideologia. Por meio dela, o ponto de
vista, as opiniões e as idéias de uma das classes sociais - a dominante e
dirigente - tornam-se o ponto de vista e a opinião de todas as classes e de
toda a sociedade.
A função principal da
ideologia é ocultar e dissimular as divisões sociais e políticas, dar-lhes a
aparência de indivisão e de diferenças naturais entre os seres humanos.
Indivisão: apesar da divisão social das classes, somos levados a crer que somos
todos iguais porque participamos da idéia de “humanidade”, ou da idéia de
“nação’ e “pátria”, ou da idéia de “raça”, etc. Diferenças naturais: somos
levados a crer que as desigualdades sociais, econômicas e políticas não são
produzidas pela divisão social das classes, mas por diferenças individuais dos
talentos e das capacidades, da inteligência, da força de vontade maior ou
menor, etc.
A produção ideológica da
ilusão social tem como finalidade fazer com que todas as classes sociais aceitem
as condições em que vivem, julgando-as naturais, normais, corretas, justas, sem
pretender transformá-las ou conhecê-las realmente, sem levar em conta que há
uma contradição profunda entre as condições reais em que vivemos e as idéias.
Por exemplo, a ideologia afirma que somos todos
cidadãos e, portanto, temos todos os mesmos direitos sociais, econômicos,
políticos e culturais. No entanto, sabemos que isso não acontece de fato: as
crianças de rua não têm direitos; os idosos não têm direitos; os direitos
culturais das crianças nas escolas públicas é inferior aos das crianças que
estão em escolas particulares, pois o ensino não é de mesma qualidade em ambas;
os negros e índios são discriminados como inferiores; os homossexuais são
perseguidos como pervertidos, etc.
A maioria, porém, acredita que
o fato de ser eleitor, pagar as dívidas e contribuir com os impostos já nos faz
cidadãos, sem considerar as condições concretas que fazem alguns serem mais
cidadãos do que outros. A função da ideologia é impedir-nos de pensar nessas
coisas.
Os procedimentos da
ideologia
Como procede a ideologia para
obter esse fantástico resultado? Em
primeiro lugar, opera por inversão, isto
é, coloca os efeitos no lugar das causas e transforma estas últimas em efeitos.
Ela opera como o inconsciente: este fabrica imagens e sintomas; aquela fabrica
idéias e falsas causalidades.
Por exemplo, o senso comum
social afirma que a mulher é um ser frágil, sensitivo, intuitivo, feito para as
doçuras do lar e da maternidade e que, por isso, foi destinada, por natureza,
para a vida doméstica, o cuidado do marido e da família. Assim o “ser feminino”
é colocado como causa da “função social feminina”.
Ora, historicamente, o que
ocorreu foi exatamente o contrário: na divisão sexual-social do trabalho e na
divisão dos poderes no interior da família, atribuiu-se à mulher um lugar
levando-se em conta o lugar masculino: como este era o lugar do domínio, da
autoridade e do poder, deu-se à mulher o lugar subordinado e auxiliar, a função
complementar e, visto que o número de braços para o trabalho e para a guerra
aumentava o poderio do chefe da família e chefe militar, a função reprodutora
da mulher tornou-se imprescindível, trazendo como conseqüência sua designação
prioritária para a maternidade.
Estabelecidas essas condições
sociais, era preciso persuadir as mulheres de que seu lugar e sua função não
provinham do modo de organização social, mas da Natureza, e eram excelentes e
desejáveis. Para isso, montou-se a ideologia do “ser feminino” e da “função
feminina” como naturais e não como históricos e sociais. Como se observa, uma
vez implantada uma ideologia, passamos a tomar os efeitos pelas causas.
A segunda maneira de operar da
ideologia é a produção do imaginário
social, através da imaginação reprodutora. Recolhendo as imagens
diretas e imediatas da experiência social (isto é, do modo como vivemos as
relações sociais), a ideologia as reproduz, mas transformando-as num conjunto
coerente, lógico e sistemático de idéias que funcionam em dois registros: como
representações da realidade (sistema explicativo ou teórico) e como normas e
regras de conduta e comportamento (sistema prescritivo de normas e valores).
Representações, normas e valores formam um tecido de imagens que explicam toda
a realidade e prescrevem para toda a sociedade o que ela deve e como deve
pensar, falar, sentir e agir. A ideologia assegura, a todos, modos de entender
a realidade e de se comportar nela ou diante dela, eliminando dúvidas,
ansiedades, angústias, admirações, ocultando as contradições da vida social,
bem como as contradições entre esta e as idéias que supostamente a explicam e
controlam.
Enfim, uma terceira maneira de
operação da ideologia é o silêncio.
Um imaginário social se parece com uma frase onde nem tudo é dito,
nem pode ser dito, porque, se tudo fosse dito, a frase perderia a coerência,
tornar-se-ia incoerente e contraditória e ninguém acreditaria nela. A coerência
e a unidade do imaginário social ou ideologia vêm, portanto, do que é
silenciado (e, sob esse aspecto, a ideologia opera exatamente como o
inconsciente descrito pela psicanálise).
Por exemplo, a ideologia
afirma que o adultério é crime (tanto assim que homens que matam suas esposas e
os amantes delas são considerados inocentes porque praticaram um ato em nome da
honra), que a virgindade feminina é preciosa e que o homossexualismo é uma
perversão e uma doença grave (tão grave que, para alguns, Deus resolveu punir
os homossexuais enviando a peste, isto é, a Aids).
O que está sendo silenciado
pela ideologia? Os motivos pelos quais, em nossa sociedade. o vínculo entre
sexo e procriação é tão importante (coisa que não acontece em todas as
sociedades, mas apenas em algumas, como a nossa). Nossa sociedade exige a
procriação legítima e legal a que se realiza pelos laços do casamento, porque
ela garante, para a classe dominante, a transmissão do capital aos herdeiros.
Assim sendo, o adultério e a perda da virgindade são perigosos para o capital e
para a transmissão legal da riqueza; por isso, o primeiro se torna crime e a
segunda é valorizada como virtude suprema das mulheres jovens.
Em nossa sociedade, a
reprodução da força de trabalho se faz pelo alimento do número de trabalhadores
e, portanto, a procriação é considerada fundamental para o aumento do capital
que precisa da mão-de-obra. Por esse motivo, toda sexualidade que não se
realizar com finalidade reprodutiva será considerada anormal, perversa e
doentia, donde a condenação do homossexualismo. A ideologia, porém, perderia
sua força e coerência se dissesse essas coisas e por isso as silencia.
Ideologia e
inconsciente
Dissemos que a ideologia se
assemelha ao inconsciente freudiano. Há, pelo menos, três semelhanças
principais entre eles:
1. o fato de que adotamos crenças, opiniões,
idéias sem saber de onde vieram, sem pensar em suas causas e motivos, sem
avaliar se são ou não coerentes e verdadeiras;
2. ideologia e inconsciente operam através do
imaginário (as representações e regras saídas da experiência imediata) e do
silêncio, realizando-se indiretamente perante a consciência. Falamos, agimos,
pensamos, temos comportamentos e práticas que nos parecem perfeitamente
naturais e racionais porque a sociedade os repete, os aceita, os incute
em nós pela família, pela escola, pelos livros, pelos meios de comunicação,
pelas relações de trabalho, pelas práticas políticas. Um véu de imagens
estabelecidas interpõe-se entre nossa consciência e a realidade;
3. inconsciente e ideologia não são deliberações
voluntárias. O inconsciente precisa de imagens, substitutos, sonhos, lapsos,
atos falhos, sintomas, sublimação para manifestar-se e, ao mesmo tempo,
esconder-se da consciência. A ideologia precisa
das idéias-imagens, da inversão de causas e efeitos, do silêncio
para manifestar os interesses da classe dominante e escondê-los como interesse
de uma única classe social. A ideologia não é o resultado de uma vontade
deliberada de uma classe social para enganar a sociedade, mas é o efeito
necessário da existência social da exploração e dominação, é a interpretação
imaginária da sociedade do ponto de vista de uma única classe social.
Erguendo o véu,
tirando a máscara
Diante do poder do
inconsciente e da ideologia poderíamos ser levados a “entregar os pontos”,
dizendo: Para que tanto esforço na teoria do conhecimento, se, afinal, tudo é ilusão,
véu e máscara? Para que compreender a atividade da consciência, se ela é a
“pobre coitada”, espremida entre o id e o super-ego, esmagada entre a classe
dominante e os ideólogos?
Todavia, uma pergunta também é
possível:
Como, sendo a consciência tão frágil, o
Inconsciente e a ideologia tão poderosos, Freud e Marx chegaram a conhecê-los,
explicar seus modos de funcionamento e suas finalidades?
No caso de Freud, foram a
prática médica e a busca de uma técnica terapêutica para os indivíduos que
permitiram a descoberta do inconsciente e o trabalho teórico de onde nasceu a
psicanálise. No caso de Marx, foi a decisão de compreender a realidade a partir
da prática política de uma classe social (os trabalhadores) que permitiu a
percepção dos mecanismos de dominação e exploração sociais, de onde surgiu a
formulação teórica da ideologia.
A busca da cura dos
sofrimentos psíquicos, em Freud, e a luta pela emancipação dos explorados, em
Marx, criaram condições para uma tomada de consciência pela qual o sujeito do conhecimento
pôde recomeçar a crítica das ilusões e dos preconceitos que iniciara desde a
Grécia, mas, agora, como crítica de suas próprias ilusões e preconceitos.
Em lugar de invalidar a razão,
a reflexão, o pensamento e a busca da verdade, as descobertas do inconsciente e
da ideologia fizeram o sujeito do conhecirnerto conhecer as condições -
psíquicas, sociais, históricas - nas quais o conhecimento e o pensamento se
realizam.
Como disseram os filósofos
existencialistas acerca dessas descobertas:
Encarnaram o sujeito
num corpo vivido real e numa história coletiva real, situaram o sujeito. Desvendando os obstáculos psíquicos e
histórico-sociais para o conhecimento, puseram em primeiro plano as relações
entre pensar e agir, ou, como se costuma dizer entre a teoria e a prática.
Marilena
Chauí, “Convite à filosofia” – Ed. Ática, p.172-5
Livros
Marilena Chauí
- "Repressão Sexual",
- "Da Realidade sem
Mistérios ao Mistério do Mundo",
- "Brasil: Mito
Fundador e Sociedade Autoritária",
- "Professoras na
Cozinha" (com Laura de Souza Chaui)
- "Introdução à
História da Filosofia",
- "Experiência do
Pensamento",
- "Escritos Sobre a
Universidade",
- "Filosofia: Volume
Único",
- "Convite à Filosofia",
- "O que é Ideologia'
1980'",
- "Política em Espinosa"
,
- "A Nervura do
Real'1999'",
- "Espinosa: Uma
Filosofia de Liberdade",
- "Brasil: Mito
fundador e sociedade autoritária",
- "Cidadania Cultural",
- "Simulacro e poder".
Referências:Projeto Livros para todos. Download gratuito de livros de Marilena
Chauí: O que é ideologia, A Ética de Kant, Brasil : Mito
Fundador e Sociedade Autoritária e Convite à Filosofia.Entrevista: José Guilherme Merquior – Um mestre da polêmicaEstadão na Escola. Marilena Chaui humaniza a filosofia, por Maria Hirszman.
Alguns
Prêmios e títulos
1992 - Ordre des Palmes
Académiques, Presidência da República da França.
- 1994 - Prêmio Jabuti - para Convite
à Filosofia', como melhor livro didático, Câmara Brasileira do Livro.
- 1995 - Ordem do Mérito, Ministério da Educação e Cultura da República Árabe da Síria.
- 1999 - Prêmio Sérgio Buarque de Holanda - melhor livro brasileiro de ensaios, 'A nervura do real', Biblioteca Nacional.
- 2000 - Prêmio Jabuti para o
melhor livro brasileiro de humanidades, A nervura do real, Câmara Brasileira do Livro.
- 2000 - Prêmio Multicultural Estadão - pela obra cultural e
filosófica e pelo livro 'Nervura do real', O
Estado de São Paulo.
- 2003 - Título de Doctor
Honoris Causa da Universidade de Paris VIII - França.
- 2004 - Título de Doctor
Honoris Causa, Universidad Nacional de Córdoba - Argentina.
Linhas
de pensamento.
“As
pessoas que, desgostosas e decepcionadas, não querem ouvir falar em política,
recusam-se a participar de atividades sociais que possam ter finalidade ou
cunho político, afastam-se de tudo quanto lembre atividades políticas, mesmo
tais pessoas, com seu isolamento e sua recusa, estão fazendo política, pois
estão deixando que as coisas fiquem como estão e, portanto, que a política
existente continue tal qual é. A apatia social é, pois, uma forma passiva de
fazer política.”
“Desejo é
relação entre seres humanos carentes. Por isso amamos até à loucura e odiamos
até a morte: nosso ser está em jogo em cada e em todos os afetos. Desejo é
paixão, diziam os clássicos.”
“Os
animais são seres naturais; os humanos, seres culturais.”
"Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos
do senso comum for útil;
se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil;
se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil;
se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil;
se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.”
Referência: CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. Editora Ática, São Paulo, 2000. Pg. 17.
se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil;
se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil;
se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil;
se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.”
Referência: CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. Editora Ática, São Paulo, 2000. Pg. 17.
Alunas: Jamile Santos Lôbo e Viviane Ramos Villela Dourado Santos.





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