terça-feira, 29 de maio de 2012




Moacir Gadotti 

Professor titular da faculdade de educação da universidade de São Paulo (USP) desde 1991. Atual diretor do instituto Paulo Freire em São Paulo.



 



Nacionalidade brasileira
Nascido em 01 de outubro de 1941
Ocupação – Pedagogo, professor e escritor.
Gadotti é licenciado em pedagogia, filosofia, mestre em filosofia da educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC – SP).   Doutor em ciências da educação pela Universidade de Genebra (Suíça) e livre docente pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).
  
Perspectivas da educação por Moacir Gadotti

Aprendizagem é um processo em anel retroativo-recursivo que transgride a lógica clássica, em direção a um nívelcada vez mais intregado ao todo. Esse conceito de aprendizagem não visa a acumulação de conhecimentos pelos alunos, mas pretende que estes dialoguemcom o conhecimentos, reistruturado-se e retendo o que é significativo. Portanto, educar é fazercom que os jovens dialoguem com o conhecimento. Cuidar da autorreferencialidade através da multirreferencialidade. Cuidar da unidade através da diversalidade.

CONCEPÇÃO DA ESCOLA, ENSINO E APRENDIZAGEM
SEGUNDO MOACIR GADOTTI

Reconhecido como maior especialista em educação que o Brasil já teve, o pedagogo Moacir Gadotti conhece de perto a pedagogia do oprimido, segundo a qual o sistema de ensino impõe os valores das classes dominantes aos menos favorecidos. Hoje é um ativista da educação para a sustentabilidade e afirma com ênfase que o planeta é um grande oprimido. Com o instituto Paulo Freire Gadotti participou da conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, foi quando surgiu a proposta de um tratado de ética que norteasse a criação de um mundo sustentável. Faltava uma declaração que incluísse todos os seres do planeta os humanos e os não humanos, e indicasse a melhor forma de relacionamento entre eles, foi lançado então A Carta da Terra, que solucionou essa questão. Gadotti ajudou a coordenar os textos relativos à educação durante o processo de redação da carta e hoje é um dos conselheiros da organização Carta da Terra Internacional. A sustentabilidade foi eleita o conceito chave na renovação da educação do século XXI pela UNESCO e a Carta da Terra é reconhecida como o documento orientador dessa “Nova Educação”. È preciso deixar de lado a pedagogia da era industrial, que tem uma visão produtivista e exploratória do planeta. A Carta da Terra é um documento fundamental nesse processo de mudança de paradigma: a terra tem que ser vista não apenas como um ser astronômico, mas, como um ser vivo. Não se muda o mundo sem uma nova teoria, sem uma nova lógica. Para mudar é necessário criar outra teoria, outra lógica, para além da lógica do capital e do seu mercado. Uma nova lógica de poder está sendo apontada pelos movimentos sociais através de suas ações globais pela justiça e paz, pela ética na política, pelo consumo ético e solidário que não destrói o planeta. Nesses, sentido, educar para um outro mundo possível é educar para superar a lógica desumanizadora do capital que tem no individualismo e no lucro seus fundamentos, é educar para transformar radicalmente o modelo  econômico e político atual, como sustenta István Mészáros em seu belo livro A Educação  para  Além do Capital. Ao mesmo tempo, tudo isso tem a ver essencialmente com o sentido profundo que construímos para nossa vida. A responsabilidade não é apenas social. É também individual, pessoal. Para Gadotti,  educar para viver harmoniosamente no Cosmos é educar para outro mundo possível. Só assim poderemos entender hoje os problemas do aquecimento global, da desertificação, do desflorestamento, da água, do lixo e dos problemas que atingem humanos e não humanos. Os paradigmas clássicos, arrogantemente antropocêntricos e industrialistas, não têm suficiente abrangência para explicar essa realidade cósmica. Os paradigmas clássicos estão  levando o planeta ao esgotamento de seus recursos naturais.    
A crise atual é uma crise de paradigmas civilizatórios. Educar para outros mundos possíveis supõe um novo paradigma, um paradigma holístico.
Só o povo organizado pode fazer história. Os movimentos sociais contemporâneos não querem ficar na platéia, na arquibancada. A sociedade civil não pode assistir, tem que ser protagonista deste outro mundo possível, fazendo cobranças para que a esperança se torne realidade, porque o neoliberalismo ainda está vivo, muito vivo, ainda não foi derrotado. Segundo Gadotti a educação básica como o lugar de produção da liberdade, da criação do destino de cada um, de cada uma. Por isso, não cuidar da escola básica é não cuidar da nação, do destino da sociedade, da libertação de cada um. Para muitos, a escola básica é o único espaço público e democrático de que dispõem. Apesar do avanço na matrícula de crianças e jovens de 7 a 14 anos no ensino fundamental no Brasil, ainda existe o problema grave do abandono e da defasagem série/idade. As crianças pobres podem estar matriculadas na escola, mas sua cultura aí não está. Não basta incluir crianças na escola; é preciso incluí-las com uma nova qualidade.
Para ele o professor caminha lado a lado com a transformação da sociedade, não é um ente abstrato, ausente, mas uma presença atuante, participante e "dirigente", que organiza, concretiza a ideologia da classe que representa esperança.Pela educação, queremos mudar o mundo, a começar pela sala de aula, pois as grandes transformações não se dão  apenas como resultantes dos grandes gestos, mas de iniciativas cotidianas, simples e persistentes. Por tanto, não há excludência entre o projeto pessoal e o coletivo: ambos se completam dialeticamente.    É  importante  pensarmos que para garantirmos o respeito às diferenças, à liberdade de ser e de pensar, tanto de alunos, educadores quanto  do papel da  família nos processos de participação nas escolas a democracia só se garante e se exercita no confronto entre as diferenças políticas, ideológicas, sociais, psicológicas, entre outras.Esse confronto, porém, para ser democrático precisam fundamentar-se na ampla possibilidade de informação, de reflexão, de conhecimento, de crítica, de parceria entre instituições governamentais, sindicatos voltados para educação, escola-família e no equilíbrio de forças, que garantam a discussão e a viabilidade das propostas voltadas para o estabelecimento do paradigma holístico do ato de educar. Segundo Gadotti o Brasil não conseguiu até hoje erradicar o analfabetismo,
primeiro porque existe um atraso secular de décadas, um atraso crônico na educação brasileira, que vem desde os jesuítas, a colônia, o império, a república. Nós despertamos para a educação no século XX, na década de 30, já que na década de 20 tivemos as primeiras formações de educadores. Então, esse atraso é crônico, o esforço é muito maior do que o esforço de dois governos. O analfabetismo é a negação de um direito. O analfabetismo tem a ver com um conjunto do bem viver das pessoas. Imagina agora: chegamos a ter mais de 300 classes de catadores de produtos recicláveis de lixo. Imagina que a pessoa está na rua das 5 horas da manhã até as 7 horas da noite, catando lixo, e às 7 horas da noite vai para uma sala de aula. É muito difícil essa pessoa ter condições, depois de um dia passando fome, de se alfabetizar. Então, as condições sociais são determinantes. Condições sociais de moradia, de trabalho, de emprego, de saúde, fora a educação. A educação não está desligada, não é um problema setorial, é um problema estrutural com os outros condicionantes. Então, a qualidade da educação tem a ver com esses outros fatores, está ligada. Não estou dizendo que precisa primeiro resolver o problema da moradia, do emprego, do transporte, para depois resolver a educação. Isso vai ser junto. O nosso analfabetismo é muito maior do que de outros países da América Latina. O do MERCOSUL, por exemplo, é 2,5%, 3%, o nosso é 9,8%, são 15 milhões de pessoas. Vou dar dois pontos onde o atraso continua, em que nós paramos, simplesmente estacionamos: educação de adultos, nós praticamente estacionamos nos analfabetos.
Gadotti apresenta a educação como ponto fulcral de seu texto, pois que não se refere a educação que estamos vivenciando. Está falando de outra coisa muito mais sublime que ao tratar por educação demonstra: humildade e depois mau gosto. Humildade: pois equiparar as idéias que colocou com educação com certeza desvaloriza muito o seu esforço. Mau gosto: pois o pejo que carrega a palavra Educação dentro de uma visão deformadora dos seres humanos (Freud), que procura moldar dentro de uma lógica mercadológica de produção e consumo (Granmsi), instrumentalizada de uma maquinaria que não visa à aproximação, mas o assemelhamento (normalização), só nisso já faz com que seu fedor seja insuportável. A escola deve deixar de ser selecionadora e precisa ser gestora do conhecimento. Deixar de ser lecionadora. Uma escola que puramente leciona deixa de ter sentido numa era da informação. Não é mais importante acumular informação, mas saber pensar, saber organizar o trabalho, saber gerenciar o conhecimento. Há uma nova escola dentro da velha escola. E esse parto é muito doloroso, porque ensinamos como aprendemos na velha escola. A seriação exige um tipo de avaliação, que privilegia apenas a disciplina. A escola nova não avalia quanto um aluno sabe Português, Matemática, por exemplo, mas avaliam primeiro o sujeito, seu ritmo, dificuldades e problemas. A avaliação deve ser o ato de acolhimento do aluno e depois deve avaliar a relação dele com o conhecimento. A repetência existe em função das séries. Se não tem série, você tem avanços progressivos dentro de um conteúdo, de um contexto curricular. Em vez de só avaliar Matemática, leva-se em conta o quanto ele participa, o quanto ele sabe organizar seu trabalho. Saber organizar, participar, ser disciplinado, não só suas atitudes e conteúdos disciplinares são fatores decisivos na formação de um indivíduo. Todos somos vítimas, mas todos são determinantes de uma situação. Não é a palavra adequada falar em vítimas e culpados. É que nós não sabemos agir sob nossas determinações culturais, econômicas, sociais. Por isso Paulo Freire foi genial. Ele dizia que a educação é acima de tudo um ato de libertação. É uma prática de liberdade.  Não há o tempo determinado para a aprendizagem. Vale tudo para aprender o tempo todo. Quanto mais amadurecido se está, mais condições se têm. A criança traz muito novidade. Veja como uma criança chega de um final de semana agitada, cheia de coisas para falar. Isso é um saber e esse saber deve ser respeitado e trabalhado. Esse universo da criança é muito pouco respeitado. Os módulos de progressão respeitam o ritmo dos alunos. Um estudante pode melhorar seu conhecimento em Matemática se tiver mais tempo além daquele determinado no calendário escolar. Não é justo fazê-lo retornar ao ponto de partida.
A escola precisa ser reencantada, encontrar motivos para que o aluno vá para os bancos escolares com satisfação, alegria. Existem escolas esperançosas, com gente mais animada, mas existe um mal-estar geral na maioria delas. Não acredito que isso seja trágico. Essa insatisfação deve ser aproveitada para se dar um salto. Se o mal-estar for trabalhado, ele permite um avanço. Se for aceito como uma fatalidade, ele torna a escola um peso morto na história, que arrasta as pessoas e as impede as pessoas de sonhar, pensar e criar. Não se deve perder o censo crítico e a capacidade de sonhar. Um professor que não sonha que não pensa que não tem um projeto de vida é incompetente. Faz parte da competência dele a utopia, o sonho, o compromisso, a vontade de mudar as coisas. Porque ele educa um mundo que está em construção, portanto o sonho faz parte do projeto educativo. Infelizmente, há um desencantamento, mas existem pessoas com muita vontade e são essas pessoas que fazem que a escola pública tenha um sentido. Os alunos pobres, da escola pública sofrem de um mal chamado estigma. A passagem do ambiente da casa para a escola do aluno de classe média é natural porque ele tem em casa lápis, jornal, revista e discussões. A escola acaba sendo um prolongamento de sua casa. Nas classes populares, essa passagem é diferente. Os pais são analfabetos, não discutem e não dispõem de materiais. A escola é um mundo diferente, então ele precisa de mais esforço. A criança quer aprender por mais hostil que seja seu ambiente familiar. A escola deve seduzi-lo para o conhecimento. O professor precisa ter sensibilidade e menos preconceito. Ninguém chega pronto na escola, portanto ele tem direito à educação independente de qualquer previsão que se tenha dele. Professor não é místico. O professor idealiza uma classe de alunos da classe média. Ele fica desencantado porque não é esse aluno que ele vai receber na escola pública. A realidade é outra, é dura. Ele precisa se compenetrar, saber que esse aluno precisa ser encantado, que antes de ensinar Português é preciso seduzi-lo para o Português.

OBRAS


  1. Pedagogia: Dialogo e conflito (Cortez, 1985)
  2. Educação e compromisso (Papereu, 1985)
  3. Educação é poder (Cortez, 1988)
  4. Marx: Transformar  o mundo (FTD,1989)
  5. Historia das ideias pedagógicas (Ática, 1993)
  6. Pedagogia da Práxis (Cortez, 1995)
  7. Pedagogia da Terra (Petrópolis, 2000)
  8.  Os mestres de Rousseau( Cortez, 2004)
  9. Boniteza de um sonho: ensinar e aprender com sentido (WTC Editora, 2007)
  10. Educar para outro mundo possível (Publisher, 2007)

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Escola Cidadã
Resenha

Neste livro Moacir Gadotti faz uma abordagem geral e especifica dos termos: Autonomia, Autogestão e Administração, dentro do contexto escolar. Segundo ele expôs, este tema possui muitas particularidades, mas depois de compreendidas conseguimos esclarecer diversos sugestionamentos negativos que formamos a cerca da escola pública. A escola que não possui capacidade de educar para a real liberdade, afinal educar significa capacitar o educando para que seja capaz de buscar respostas e novas formas de ler o mundo que o cerca. A escola autônoma é aquela que se autogorvena. Mas como se autogorvernar quando as decisões muitas vezes vêem prontas apenas para serem execultadas? E neste ponto que começa a discutir a Autogestão, uma vez que esta na escola é uma tentativa de autonomia. A autogestão não significa participação e sim transformação, ou seja, não se representam mais algo e sim exercer diretamente o poder, que agora passa a possuir um caráter ético o modificador da natureza. No campo pedagogico a autogestão é um tema inseparável de uma certa compreenção da sociedade. Autogestão é um sistema no qual os próprios colaboradores gerenciam sua instituição, no caso a escola e positivamente isto tem a contribuir para que todos os membros desta sintam-se parte ativa e intregante do processo e desta forma contribua para a mudança nos modelos educacionais que hoje prensenciamos e fracassados. A pedagogia Institucional propoem a autogestão como uma forma de fucionamento da instituição escolar para quebrar a relação de dependência psicologica aduto-criança geradapela familia que as escolas tradicionais reforçam nas relações autoritarias. A administração deve possuir um caráter descentralizador com os seguintes princípios: uma gestão democrática que valoriza a escola e seus integrantes, uma comunicação direta que vise a ligação positiva e produtiva com a comunidade frenquetadora; uma autonomia da escola que vise o poder de construir o projeto político pedagogico que valorize de fato a avaliação continua e não mais a esolada e burocrática que de vez ajudar a qualidade de ensino promover futuros cidadão reprimido e excluidos da sociedade. Na idéia de Moacir Gadotti, uma escola cidadã é aquela em que as escolas deixem de ser subordinadas a orgão centrais, transformando-se em cooperativas de professores e, ainda diz que para que isto ocorra é necessário que a população possua acesso a qualidade de vida, para que desta forma os alunos possuam prazer em frenquentar e saia dela de fato um cidadão.

GADOTTI NA REDE

 





 "Caros amigos" entrevista Moacir



Caros Amigos - Fale sobre a sua trajetória, como se tornou educador, quando passou a trabalhar com Paulo Freire.
Moacir Gadotti - É muita responsabilidade falar de si mesmo, não é muito fácil. Mas eu acho que eu sou um professor, simplesmente. Tenho 46 anos de magistério. Trabalhei desde a pré-escola até a pós-graduação, hoje ainda continuo na USP.

(...)


Como começou na área da educação?
Eu comecei como professor de Matemática, quando eu estava fazendo o curso de Pedagogia. Terminei em 67. Iniciei também um curso de Filosofia, mas demorei dez anos para terminar, porque estava trabalhando e estudava, foi difícil. Então eu comecei dando aula de Matemática, porque o curso de Pedagogia daquela época dava uma licença para ensinar Matemática nas séries iniciais, não era Matemática avançada. Trabalhei em creches, em pré-escolas, dei aula de Filosofia depois do curso de Pedagogia.

Em São Paulo?
Em São Paulo. Eu cheguei a dar aula em oito escolas ao mesmo tempo.
No ensino público?
Ensino público e privado. Havia uma aula minha de Filosofia que, depois de 69, o meu programa foi substituído por Educação Moral e Cívica, foi proibida a Filosofia. Eu me lembro muito bem, nesse dia eu estava lecionando no Colégio Sagrado Coração de Jesus e a diretora me falou assim: “Olha, a partir de hoje você não é mais professor de Filosofia, você é professor de Moral e Cívica, e aqui está o programa”. Ai eu disse: “Bom, então eu vou passar a ser professor de Educação Moral e Cívica, mas não vou mudar o programa”, o programa já estava em andamento. Uma história daquele período difícil. Depois eu terminei meu curso de Filosofia. Comecei a dar aula de Filosofia na Faculdade Nossa Senhora Medianeira, na Avenida Paulista, enquanto concluía na PUC o mestrado. O mestrado conclui em 73, e no mesmo ano fui para Genebra fazer o doutorado a convite de uma associação de Filosofia de lá. Participei de um concurso em 73, havia uma só vaga de bolsista e consegui ganhar essa única vaga. Eu também queria muito ir à Genebra porque o Paulo Freire, em 70, tinha mudado para lá, e eu tinha trabalhado em 67 com o primeiro livro que saiu do Paulo Freire, que era “Educação como prática da liberdade”, foi no trabalho de conclusão de curso de Pedagogia.
Por que o Brasil não conseguiu até hoje erradicar o analfabetismo?
Bom, primeiro existe um atraso secular de décadas, um atraso crônico na educação brasileira, que vem desde os jesuítas, a colônia, o império, a república. Nós despertamos para a educação no século XX, na década de 30, já que na década de 20 tivemos as primeiras formações de educadores. Então, esse atraso é crônico, o esforço é muito maior do que o esforço de dois governos. Nós tivemos um dado muito negativo que saiu no dia 19 de setembro de 2009, do Pnad. Eu me lembro dessa data porque dia 19 é o dia do nascimento de Paulo Freire, ele completaria 88 anos nesse dia. O dado é que aumentou o número oficial de analfabetos no Brasil de 2007 para 2008, foram dados do IBGE de 2009. Aumentou o número. Nós temos hoje o mesmo número de analfabetos que tinha quando Paulo Freire deixou o Brasil para ir para o exílio: 15 milhões. Continua e aumentou. Quer dizer, essa pergunta procede. Aumentou em número absoluto e diminuiu a taxa de analfabetismo, de 9,9% para 9,8%, a taxa caiu 0,1%.

(...)

Está certo que tem muitos problemas, mas eu acho que começa na base. E quando se fala em ensino fundamental, por que a Unesco coloca a gente lá em 88º lugar? É porque há muita evasão. A gente matricula as crianças, mas a média de evasão de primeira a oitava série está em torno de 20%.
Vamos retomar um pouco o ponto do analfabetismo. Você não concluiu a resposta do analfabetismo.
Então, a resposta do analfabetismo é que, no caso, é muito mais difícil você zerar no ensino básico, o analfabetismo zero, tem que ter cuidado com esse slogan, eu vi isso em outros países, na Venezuela, nos Estados Unidos. Cuidado, porque não é só saber ler, só saber assinar o nome, é muito mais que isso. Mas haverá, sempre haverá, mesmo nos países mais avançados, sempre tem lá 0,1%, 0,5% ou 1%. Não é zerar. Mas digamos, o índice de analfabetismo razoável de 2%, 2,5% têm muitos municípios que conseguem. Eu mesmo nasci em um município que, na minha época, não havia nenhum analfabeto, município pobre de Santa Catarina.
Quais foram os erros que o Brasil cometeu para não baixar os índices do analfabetismo?
Olha, claro que a escolarização é um fator importante. A escolarização, você pôr a criança na escola é importante, porque vai manter e depois a taxa de analfabetismo vai diminuir. Vou dar um dado: hoje, se nós considerássemos os Estados brasileiros, exluindo os Estados do Nordeste, nós teríamos 2,6% de analfabetismo no Brasil.
Infantil?
Não, não. Adulto, a partir dos 15 anos. E 2,6% é uma taixa bem baixa. A maior contribuição para o analfabetismo  está no Nordeste, tem município que tem 30%, 40% de analfabetos. O Estado do Maranhão tem em torno de 19%, hoje está com 800 mil analfabetos. É o Estado que tem mais analfabetismo, ao lado de Alagoas. Em números de analfabetos a Bahia também contribui muito. Então porque não houve a mesma taxa de escolarização que o Sul teve, que o Sudeste teve.

(...)

Os educadores não estão preparados?
Há educadores que estão mostrando seus novos paradigmas de formação. Mas não adianta aumentar a qualidade do professor num paradigma em que ele vira um mero instrutor de um programa que está aí. Ele precisa continuar com a alma de professor. Isso tem a ver também muito com o Banco Mundial, que não utiliza nenhum dinheiro com a gente. É um banco sem dinheiro, mas com ideias. E ess banco de ideias é um banco de soluções entre aspas. E as soluções sempre foram dadas a instrucionistas, numa visão de que era possível todo mundo saber a mesma coisa ao mesmo tempo, e o professor não tinha o que fazer a não ser virar a página. "Hoje nós vamos tratar de página 3 e da página 15".

(...)

Os manuais...
Os manuais são importantes. Paulo Freire, embora tenha sido contra as cartilhas, não desprezava as cartilhas. Mas é formar gente para pensar. Eu acho que a educação da era da indústria, que era para formar gente em série não dá para ser trasnportada para hoje, época em que nós precisamos de gente mais autônoma, o sucesso ou fracasso depende muito da capacidade da pessoa ter iniciativa, saber falar, saber defender seus direitos e também defender o que eu falo, através da participação, através da criação. Eu não estou muito preocupado com o ranking, estou preocupado em formar cidadão. Tirar o cidadão da miséria que está aí, a educação pode ajudar e transformá-lo em cidadão.

Isso depende de programa de treinamento dos professores?
Sim, mas eu acho que se você despertar na criança, no jovem, o desejo de aprender, ele vai entrar muito mais rapidamente num ensino de matemática, de língua portuguesa, de inglês, que é exigência básica para viver na sociedade. Ele avança muito mais. É preciso que o que eu sei tenha sentido para mim. E quantas crianças não vão para a escola e se perguntam que sentido tem aprender isso? A formação do professor tem que ser numa direção dele ser um orientador da aprendizagem, incentivador. Tem dados que mostram que, quando um professor aprende com o aluno, pesquisa com o aluno, está com o aluno, gosta do que está ensinando, as crianças se interessam mais em aprender. É só não fechar essa torneirinha da aprendizagem. Eles dependem muito da criação de um professor, estimulador, que encontre boas condições de aprendizagem, que dialogue. Diálogo é fundamental. Que dialogue com a comunidade, com os pais, que seja um gestor do conhecimento, um animador cultural. Então, depende muito dele ser um dirigente, o professor precisa ser um dirigente, não um burocrata, executor de programa. Ele precisa ser um dirigente, um intelectual orgânico, que tenha ideia, que estimule a participação política. Não precisa ter faculdade, só instrução da política da escola, da política da comunidade. Só uma liderança, só uma liderança democrática.
A remuneração do professor é investimento na educação?
Está no Supremo Tribunal Federal o piso salarial. Enquanto eles estão discutindo o teto deles, não estão liberando o nosso piso.



Referências:

GADOTTI,Moacir.Escola Cidadã.11.ed.São Paulo: Cortez,2006,120p.(coleção Questão da Nossa Epoca,v.24).













MEMBROS

CHARLESSON DOS SANTOS RIBEIRO

DULCINEIA FAGUNDES DE SANTANA ALMEIDA 

MARIA DAS GRAÇAS MOTA







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